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Denilson Cardoso de Araújo


BALADA DA FLOR MACHUCADA

 

Para Marcela, com paterno carinho.

  Era uma flor. Belíssima flor. Mas tanta touceira de espinhos em volta impedia a luz de beber na doçura da pétala. Era uma flor. Mas vivia escondida em mágoas. Como um caranguejo na pedra, como uma semente na casca, como o pólen no vento brumoso. Era uma flor. Tinha sido, um dia, pisada. Injustamente pisada, como injustos, sempre serão, os que machucam inocências e sapateiam em flores. Mas sobrevivera, ainda que machucada.

Como um pássaro de asa quebrada, que voava meio torto, mas ainda voava. Perfumava, ainda, a flor. Isso, importava. Mas ela, flor marcada, não se conformava. Como se quisesse deletar dos tempos o acidente, o injusto, a maldade, a pisada, esquecida de que o tempo não volta. Esquecida de que mesmo Da Vinci, o gênio pintor, pingava acidentes de tinta na tela, e que o que pra outro só seria um borrão, ele acabava achando, por trás do azar, um olho com brilho, uma mona lisa, uma solução. O infortúnio, virava especial detalhe na obra. O inesperado, que na hora raivosa doía, depois, melhor ponderado, produzia perfeição. Mas aquela flor não, ela criara espinhos em volta.

 Como doera, tinha invencíveis defesas.  Abismo. Cerca. Parede. Muralha.

Cuidava-se, a flor machucada.

E vivia à espreita, olhando pros lados, como quem aguarda constantes batalhas.

O ódio era um arsenal de flechas armadas.  Coração em triste prontidão. Uma faca cortante, o ódio, no seu coração. Uma lembrança perene, de chumbo, como um pulso cortado num rio, escorrendo o sangue de um corpo que nunca esvazia, porque o ódio é um copo sem fundo, uma coisa sem fim. Um cérebro escorrendo memórias ruins, um disco arranhado no mesmo acorde desafinado, uma TV triste que só exibe o mesmo filme chato.

Nisso, passavam beija-flores, abelhas, outras flores... Lá fora... a vida passava, em desperdícios.

Mas permanecia ali trancada, aquela flor bela, na sua cerca de espinhos.

Como uma princesa dourada num castelo de ferros.

Seu castelo de ódio. Sua dor recorrente, jamais esquecida.

A flor delicada não via que o que tanto a defendia, também a sufocava e o doce beijo da luz e a carícia da água, a mágoa impedia. Ela definhava, descorava já, mas não percebia...  Até que um dia, a flor mais antiga que, preocupada, espiava de longe,  ela, senhora já tão alquebrada, pisada, vivida, mandou seus recados em experientes perfumes de brisas confiáveis.

-Essa dor que te marca, essa pétala quebrada,

olha bem, que coisa bem posta, como se por Deus preparada,

vê como as rachaduras desenharam em você uma pétala única,

como um trevo de prata, um formato de estrela.

A dor te fez uma planta melhor,

uma flor mais rara, de anjo colecionador.

A flor notou então que suas cicatrizes  eram mesmo uma espécie de mapa celeste, uma estrela, ali, na pétala pisada, uma estrela, com fio de ouro, costurada. Pela primeira vez se esgueirou  por entre a floresta de espinhos. E gostou do que viu, porque viu, além do ódio, os pássaros, os riachos, canteiros, e esticou as pétalas, como namorada que debruça o coração na janela, e finalmente, sem mágoas, sorriu.

O jardineiro a percebeu. Aquela flor.

Especial, com a pétala quebrada, cuja pétala esquerda fazia uma estrela, como um trevo de prata. Quando o jardineiro cortou todos os espinhos que a vestiam numa mortalha de ódio, a flor, então se abriu para a luz, como uma fada, uma vegetal bailarina, uma planta encantada. E, como um pássaro, esticou todas as suas asas,

sem muralhas, nunca mais sufocada.

Vieram os colibris, o pólen, as podas, as regas. Ela descobriu que tinha inaugurado, do infortúnio,

uma nova espécie de céu na rosa que era. A rosa-estrela. A rosa-nova.

A que sobrevivera.

A que não tinha mais ódios. A que fizera dos ódios,

só adubo pra melhorar primaveras.

A que não mais encarcerada em mágoas,

virou a favorita das águas.

Por isso, a que mais brilhava.



Categoria: EU E OS MEUS
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 12h15
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DESABAFO

        

            Lá vêm de novo, as matilhas... uivando e latindo... Já vi esse filme antes. Milito em causas várias, há muitos anos, desde os 14! E sempre aparecem as matilhas, sempre iguais, sempre babando acusação e calúnia. Mas os dardos caem em mim. “Quer aparecer!” – “Em tudo se mete!” -  “Quer mandar na Vara da Infância, quer mandar nas escolas, na cidade, no Brasil, no universo!” – “Sequer tem diploma!!!” –

            E como não tenho mesmo diploma, não vou sair por aí a ficar me defendendo do que é uma verdade... Mas muito menos ainda, me defenderia  do tanto que é tanta inverdade, porque minha consciência me comanda, e comanda tranqüila.

            Os murmúrios surgem como marés. Pequenas, mas sempre alimentadas por sentimentos poucos nobres, aqui e ali... Um dia, tsunamis. Vou sobrevivendo. Engulo uma água aqui, uns sapos ali. Dá sempre indigestão emocional, fazer o quê? É que a gente não espera, principalmente quando parte de quem a gente não espera. Preço a pagar pelos esforços em prol do que se acredita. É o preço a pagar. Doído. Sempre, doído. Principalmente porque esfaqueiam das sombras, das esquinas inesperadas, à traição. Mas a gente encoura.

            Mas, peço, dêem-me o direito de ao menos, pedir: que “venham aos autos” da vida, à luz da praça, os que acusam, demonstrar um centavo, um cargo, uma nomeação, uma vantagem indevida, que eu tenha recebido. Pode ser que eu esteja obrando em erro, mesmo sem saber. Com vaidades ilícitas. Com ferramentas não éticas. Quem sabe?  Perfeito, não sou. Mas que venham, que demonstrem.

            Não quero nada. Não serei vereador, não serei escrivão. Não quero traçar a mulher de ninguém. Não apoio candidaturas, apoio idéias. Não serei prefeito, presidente, nem síndico do prédio. Serei apenas este ser pequeno que, infelizmente, incomodado pela injusta realidade, incomoda. Certamente mais do que gostaria, provavelmente, muito mais do que deveria. Lamento. Mas houve quem sofresse mais por suas idéias, sabemos. E, estes, certamente muito mais incomodaram, e por mais tempo. Mas eles são os que importam. Por isso, vou levando. Dói, mas eu aguento.



Categoria: EU E OS MEUS
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 13h08
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CRIANÇA NÃO MERECE ARMA

"01/08/2008 - 21h45

Criança de 2 anos é flagrada com revólver e cigarro em Teresina

Yala Sena -  Colaboração para o UOL - Em Teresina

Imagens de uma criança de dois anos com cigarro na boca e um revólver 38 em punho foram encontradas pela polícia do 3º Distrito durante prisão de um casal em uma "boca de fumo" em Teresina (PI). A polícia descobriu, por acaso, que as fotos foram tiradas do celular da mãe do garoto em suposta farra com drogas. Garoto é abrigado e pais perdem o poder familiar."

*.*.*

             Pais de alma ébria e coração vazio. Coisificam o filho, um príncipe dos tempos, um infante dos céus. Reduzido a acessório, fica ali, enfeitando o destruidor fetiche.

            No colo do objeto bebê, a abjeta arma, a assustadora clava. A arma é que é fotografada em seu sorriso, no contraste horrendo. A morte e sua espada, com as garras pousadas no inocente colo da vida ainda seda, ainda cetim, pétala ainda, recém madrugada... O linho da manhã rasgado a patadas de pocilga.

            A criança, a vida que é uma criança, apenas compõe o cenário. Indica na verdade um alvo, mesmo que os doentes pais assim não vejam. A criança, a inocência, a coisa a ser destruída, oferecida assim, no simbolismo da bandeja-foto. Cabeça da inocência cortada. Somente compõe, bizarramente.

            Secundária coisa.  Como numa natureza morta, em que se dispõe a flor do abacaxi ao fundo pra realçar laranjas que hão de iluminar a cena. É assim que o demônio disfarça a exibição de um chifre em fogo no pistilo duma flor sublime. Assim, a pureza dos berços é carcomida por vampiros. Assim alguém arranca um braço a uma criança e em seu lugar implanta um sabre. Assim um coração de algodão faz-se esponja em lodo, pano de chão, uma pedra de esgoto.

            Um cérebro de menino assim acolhe silenciosamente o inconfessável vômito do inferno. O cristal imaculado, a planta sagrada, o cálice de auroras, tudo entornado em sangue nas goelas sujas de ferozes alcatéias.

            E a criança, assim, é retalhada, com a maldição sobre si, pelos próprios pais, armada.  

            É uma não-criança, a criança armada. A criança com a arma em si depositada.

            Frágil, o garoto estanca, um sorriso amargo atrás da arma.

            Os pais se riem. Nojentamente, odiosamente, drogados, riem da cruel piada. Com os que nos condomínios, embriagados de materialismo cedem aos filhos games assassinos, concedem vídeos violentos, moldadores de perfis rasteiros, cruéis destinos.

            Uma criança não merece isso. Uma criança é, de Deus, um hino.

            Uma criança merece ser amada. E o amor não usa arma. O amor não fotografa. O amor não coisifica nunca.

            Porque o amor sabe que toda criança é uma coisa sacra.

 

*.*.*



Categoria: INFÂNCIA E JUVENTUDE
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 20h57
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