BALADA DA FLOR MACHUCADA

Como um pássaro de asa quebrada, que voava meio torto, mas ainda voava. Perfumava, ainda, a flor. Isso, importava. Mas ela, flor marcada, não se conformava. Como se quisesse deletar dos tempos o acidente, o injusto, a maldade, a pisada, esquecida de que o tempo não volta. Esquecida de que mesmo Da Vinci, o gênio pintor, pingava acidentes de tinta na tela, e que o que pra outro só seria um borrão, ele acabava achando, por trás do azar, um olho com brilho, uma mona lisa, uma solução. O infortúnio, virava especial detalhe na obra. O inesperado, que na hora raivosa doía, depois, melhor ponderado, produzia perfeição. Mas aquela flor não, ela criara espinhos em volta.
Como doera, tinha invencíveis defesas. Abismo. Cerca. Parede. Muralha.
Cuidava-se, a flor machucada.
E vivia à espreita, olhando pros lados, como quem aguarda constantes batalhas.
O ódio era um arsenal de flechas armadas. Coração em triste prontidão. Uma faca cortante, o ódio, no seu coração. Uma lembrança perene, de chumbo, como um pulso cortado num rio, escorrendo o sangue de um corpo que nunca esvazia, porque o ódio é um copo sem fundo, uma coisa sem fim. Um cérebro escorrendo memórias ruins, um disco arranhado no mesmo acorde desafinado, uma TV triste que só exibe o mesmo filme chato.
Nisso, passavam beija-flores, abelhas, outras flores... Lá fora... a vida passava, em desperdícios.
Mas permanecia ali trancada, aquela flor bela, na sua cerca de espinhos.
Como uma princesa dourada num castelo de ferros.
Seu castelo de ódio. Sua dor recorrente, jamais esquecida.
A flor delicada não via que o que tanto a defendia, também a sufocava e o doce beijo da luz e a carícia da água, a mágoa impedia. Ela definhava, descorava já, mas não percebia... Até que um dia, a flor mais antiga que, preocupada, espiava de longe, ela, senhora já tão alquebrada, pisada, vivida, mandou seus recados em experientes perfumes de brisas confiáveis.
“-Essa dor que te marca, essa pétala quebrada,
olha bem, que coisa bem posta, como se por Deus preparada,
vê como as rachaduras desenharam em você uma pétala única,
como um trevo de prata, um formato de estrela.
A dor te fez uma planta melhor,
uma flor mais rara, de anjo colecionador.”
A flor notou então que suas cicatrizes eram mesmo uma espécie de mapa celeste, uma estrela, ali, na pétala pisada, uma estrela, com fio de ouro, costurada. Pela primeira vez se esgueirou por entre a floresta de espinhos. E gostou do que viu, porque viu, além do ódio, os pássaros, os riachos, canteiros, e esticou as pétalas, como namorada que debruça o coração na janela, e finalmente, sem mágoas, sorriu.
O jardineiro a percebeu. Aquela flor.
Especial, com a pétala quebrada, cuja pétala esquerda fazia uma estrela, como um trevo de prata. Quando o jardineiro cortou todos os espinhos que a vestiam numa mortalha de ódio, a flor, então se abriu para a luz, como uma fada, uma vegetal bailarina, uma planta encantada. E, como um pássaro, esticou todas as suas asas,
sem muralhas, nunca mais sufocada.
Vieram os colibris, o pólen, as podas, as regas. Ela descobriu que tinha inaugurado, do infortúnio,
uma nova espécie de céu na rosa que era. A rosa-estrela. A rosa-nova.
A que sobrevivera.
A que não tinha mais ódios. A que fizera dos ódios,
só adubo pra melhorar primaveras.
A que não mais encarcerada em mágoas,
virou a favorita das águas.
Por isso, a que mais brilhava.



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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 12h15
